A artista de Brasília residiu por dez dias no bairro da Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro. Daniela, que já conhecia o outro Rio – o da Zona Sul –, experimentou a realidade de um subúrbio carioca de amizades de infância, cadeiras nas ruas, conversas de bar e edifícios superpopulosos de humanidades e universos individuais."Então pela primeira vez o Rio de Janeiro esteve como algo somente bom, sua exuberância em tudo não me abafou ou sufocou como ser. Sempre tive a impressão de que o Rio tem muito de tudo, coisas boas e também aquelas que não são. O Rio toca e te toca dentro e fundo, não sei ou não existe uma explicação para o sentir. Rio foi bom para mim."
Depois de ter recebido Pontogor na casa em que vive com seus pais e seu filho, Daniela teve a companhia constante do artista e de sua esposa Carol, que foram verdadeiros anfitriões na cidade. Primeiramente, a artista optou por realizar sua intervenção em frente à Igreja da Penha, em meio à movimentação de fiéis, em uma performance para dificultar o acesso à escadaria de 365 degraus.
"O primeiro lugar que pensei foi a frente da Igreja da Penha – sua subida difícil, o peso de sua história e função por demais forte. Muita coisa quando a busca é pelo simples. Riscando quadrados pensava na restrição do espaço. O Rio... é muita coisa restringir ao espaço que me abrigou."
Porém, não tardou para Daniela eleger seu local ideal para trabalhar: um grande cruzamento de ruas em meio às ruínas do complexo de fábricas têxteis do Curtume Carioca. Um local inóspito, repleto de passado e desprovido de presente. Ambiente de práticas espirituais, oferendas a deuses, desmanche de carros e cemitérios ao ar livre.
Nesse contexto, no dia 16, às 16 horas, Daniela riscou quatro quadrados de cor azul usando 40 caixas de sabão em pó.
A artista persegue em sua obra a matematicidade da vida e dos acontecimentos. O trabalho de Daniela faz direta referência ao que ela entende por "viagem". Descolar-se de Brasília e da vermelhidão do seu cerrado, aprender a enxergar o azul do mar. O elemento que carrega a cor desejada tem nessa intervenção outras e múltiplas leituras; representa nesse contexto a retirada de impurezas, desprover-se, seja por meio da necessária limpeza de uma cidade caótica que, diferentemente das linhas retas e organizadas do horizonte de Brasília, cresce fluída e desordenada, ou quem sabe por meio da difícil purificação dos sentimentos humanos. Não custa apontar que na trajetória poética da artista o uso de heterônimos e personagens que dialogam e se contradizem revela uma obra essencialmente autobiográfica.
"Encontro-me em tudo que é distante de mim: prédios altos, pessoas na rua, comércio, ruas com nomes de países. Diversidade de coisas, mas uma diversidade diferente de Brasília. Como uma estrutura que remete a tradição. Então como? Diante de tudo, como? De minhas necessidades, a cor do contexto, os números, a necessidade daquilo que parece simples e talvez por isso difícil. Encontrei o ponto, sua história ou a história que se desfaz e dá inicio a uma outra (o Curtume em volta do qual cresce o bairro). Recordo da noção de identidade, seus números e do que se desfaz na busca por uma cor. Mar? Céu? Cor?"
A tragicomédia desse episódio – que bem representou a dualidade dessa cidade que nos inebria com suas cores e acontecimentos – ocorreu depois de seu suposto fim. Quando todos já estavam a duas quadras de onde a intervenção foi realizada, Pontogor retorna sozinho ao local para registrar suas últimas imagens. Dois homens se surpreendem com sua chegada e param o que estavam fazendo: com pedaços de papelão e um saco plástico eles roubavam de um suposto santo protetor o sabão em pó que estava no chão.
– Isso que vocês estavam fazendo é algo espiritual, para algum santo? Vamos ter problemas se levarmos para casa?
– Não. Isso é arte. Fiquem à vontade.
Para ler relato da artista: http://relatos4territorios.blogspot.com/2008/06/daniela-bezerra.html
Para ver fotos: http://picasaweb.google.com/4territorios/DanielaBezerra02#
Para ver o vídeo:
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